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| Vista geral da Cripta na Catedral de Campinas |
Este Blog procura retratar o cotidiano por meio de textos que buscam uma aproximação com as chamadas crônicas, tendo em vista o grande dilema que há em relação a este estilo, seja ele do jornalismo ou da literatura. Estas crônicas são criadas a partir de fatos e observações presenciadas ou vividas no dia-a-dia pelas mais variadas pessoas que perambulam pelas praças, ruas, avenidas, lugarejos, cidadelas, ônibus, bares, jardins... Ora visíveis e outras muitas invisíveis. Boa leitura!
domingo, 1 de maio de 2011
Baú de Histórias - Por um descanso perpétuo
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Baú de Histórias I
Por Fabiano Fachini
O sino toca e ao invés do sinal da cruz em agradecimento, mãos se perdem entre braçadas e passadas aceleradas. Entre gritos e pedidos de salvação, os fiéis correm da praça da Vila São Carlos, atual Campinas. O fato ocorreu em 1832 e, no livro Ontem e Anteontem, de Julio Mariano, o fato é narrado assim: “em dado instante, como que movidos por uma só idéia, povo, soldados, serventuários do Fórum, autoridades, juízes, em confusão, aos gritos, correram para todos os lados”.
O sino havia tocado sozinho, no exato momento em que davam o veredito do julgamento do Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, que na época havia sido acusado de roubo de um objeto de prata - fato forjado por latifundiários da região, que queriam ver o padre abolicionista longe dali.
No 27 de novembro de 1835, muitas pessoas se reuniram em frente a Matriz da época, atual Basílica do Carmo, e ouviram o juiz inocentar o padre. No veredito final, ouvem-se as badaladas do sino, e, como não havia ficado um fiél sequer longe da praça, só podia ser obra divina, assombração, um sinal para os pecadores.
Mas o susto foi ainda maior quando, alguns corajosos decidiram averiguar o sino. “Uma vaca branca mastigava o cânhamo do sino. Milagre! Castigo! Misericórdia, Senhor! E muita gente fazia, às pressas, o sinal da cruz”, relata o livro. Aos curiosos, tranqüilidade, pois o sino, na época, ficava mais baixo do que é hoje.
O padre acusado ainda ficaria na história, não mais pelo fato incomum, mas pelo batismo. Alguns anos depois, Anselmo voltou para a matriz, e, em 1838, batizou um menino entre muitos, mas que se tornaria o grande maestro Antonio Carlos Gomes.
Texto publicado na revista ATribuna, órgão oficial da Arquidiocese de Campinas. Nesta revista, sou colaborador, desenvolvo o projeto "Baú de histórias". Esta foi a publicação número 1, logo você poderá ler as outras edições aqui no blog.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Baú de Histórias
Apenas que venham à missa...
Por Fabiano Fachini

Em 2007, quando o esposo Benedito Aráudo de Paula faleceu, dona Maria se apegou ainda mais a fé. Como vive dentro do Parque, assim como as gerações passadas, ela freqüenta a capela ali construída. Outra senhora tomava conta, mas há anos não eram feitas missas. E foi a partir do momento que Dona Maria assumiu a capela, há um ano, que elas voltaram a ser celebradas. Do bolso de Maria, vem as velas, as flores, o presente “discreto” que ela entrega ao padre no final da missa, e o divino bolo de banana para um lanche após a missa. O mesmo bolo que ela vende na ferinha aos domingos no Parque.
Texto publicado na ediçãode agosto, da Revista A Tribuna.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Baú de histórias
Ruínas da história
Contam que na “estrada da Abolição”...
Uma capela, um tumulo, um negro, um sacrifício e uma goiabeira fazem parte de uma história de milagres. No imaginário popular, uma questão de fé e piedade. Na história, resquícios do Brasil escravista.
Narram as pessoas de mais idade, que a atual capela Nossa Senhora da Penha, antes “Santa Cruz do Fundão”, erguida na região do bairro Ponte Preta, ainda no tempo em que era conhecida como região do “fundão”, mas hoje “Estrada da Abolição”, foi palco de uma história intrigante envolvendo a fé e um escravo.
Condenado ao tronco, o escravo desesperado procurou proteção junto a um vizinho e amigo do seu amo. Mas o que o menino negro não contava, era que o homem rude e perverso o trairia. Sorrindo, o senhor ouviu a história do “negrinho”. Com maldade nos olhos e sorriso nos dentes, o senhor escreveu o bilhete a pedido do menino. Analfabeto, como tantos outros escravos, o “negrinho” saiu feliz com o bilhete em mãos.
Já a caminho de casa, o escravo ansioso por ouvir o pedido de perdão escrito pelo senhor ou desconfiado, não se sabe, pediu a um jovem que cruzou seu caminho, ao voltar da escola, que lesse o bilhete. Então a surpresa. Em poucas palavras uma sentença de morte por tentar escapar do castigo tão merecido.
Sozinho, o menino partiu para longe do estudante. Ao ficar sozinho, enforcou-se em uma árvore onde hoje está a capela. O tumulo do “negrinho”, coberto de pedras e ornamentado com uma cruz foi construído ao lado da árvore.
A capela foi erguida, não se sabe o ano, e no local eram realizadas grandes festas também. Em 1875 o proprietário do imóvel Custódio Joaquim Prado assinou um ofício e entregou à Câmera Municipal a capela. Dizia estar cansado das arruaças.
A capela ficou fechada por longos anos.
Até 1932, a capela chamava Santa Cruz do Fundão, mas com a restauração, mobilizada por católicos, passou a se chamar Nossa Senhora da Penha, pois uma imagem da santa foi doada por uma fiel, que a trouxe intacta de outra capela em reunias onde foi pagar promessas. 
Nas obras de restauro, o milagre aconteceu. Foi determinada a moção da goiabeira, e quando os galhos foram cortados, a árvore começou a chorar. Das lágrimas, curas aconteciam. Essas lágrimas, que contam não eram resina, em contato com ferimentos e tumores provocavam a cura instantânea.
Hoje não se encontram mais lágrimas dos galhos da goiabeira, e a capela está em ruínas. Tombada como patrimônio de Campinas, pelo Condepacc, e sem um dono previsível até o fechamento desta edição, a capela aguarda por cuidados e restauro. Quanto as lágrimas, dizem que duraram um mês, até que uma mulher ambiciosa começou a vendê-las.
E hoje, quem chora, é a abandonada Nossa Senhora da Penha. Esquecida, suas lágrimas se perdem em ruínas. E a fé dos homens ficou para traz, com o espetáculo das lágrimas.
Texto publicado na Revista A Tribuna (ANO100 Nº3.861-MAIO DE 2009). O quadro "baú de histórias está em sua 5º edição. Esse texto é o de número 03, do espaço Baú de Histórias. Fabiano Fachini. Fara contato fachinif@gmail.com
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Baú de Histórias IV
Tic-tac... tic-tac
As horas que passam no compasso da fé
Por Fabiano Fachini- Que horas são?
Ela se volta para o alto, em direção a catedral, e aponta de leve, com a mão cansada, e num atento olhar de respeito exclama, entre um leve suspiro:
- São sete horas, moço.
A hora perguntei de propósito e escolhi, a dedo, a pessoa de quem queria ouvir a resposta. Era hora da missa matinal, na Catedral Metropolitana de Campinas.
O relógio no alto da fachada, entre duas grandes janelas em arcada, fica de frente para a Praça Nossa Senhora do Carmo, também nome da matriz. Ele marca o passar do tempo, da história, da vida e do cotidiano dos campineiros e dos filhos adotivos que se instalaram por aqui.

Enquanto muitos passam e fazem o sinal da cruz, outros apressados e desconfiados olham a hora. Milhares de pessoas passam diariamente por ali, algumas a trabalho, outras entram para a missa e, outros, para uma breve benção.
Mas esqueci, tem os “desconfiados”, os que duvidam do relógio. Duvidam da hora, dos minutos e dos segundos que ele aponta, devido a sua idade avançada. Duas certezas: abaixo, à sua esquerda, tem uma águia e, à direita, um pelicano. A outra, é que às 12h ele aponta para o céu, mas antes para o Sino Baía, que faz parte da história da matriz desde 1847. Além disso, Mário Renato de Miranda, um senhor de boa idade, cuida do relógio há quatro décadas. R
esponsável pelo novo sistema do relógio, que desde 1992 não precisa mais ser movido à manivela, Renato já conhece a batida compassada do pêndulo e garante, com a firmeza que só a experiência dá aos homens: “a hora dele é certa”.Voltando ao relógio, símbolo do tempo, ele foi instalado no ano de 1880. O mecanismo é tão complexo quanto sua origem: desconhecida. É um conjunto de motores elétricos que eleva seus contrapesos; depois movimentam a máquina do relógio e acionam o mecanismo do carrilhão. Assim, os ponteiros do lado de fora
orientam as pessoas, que nem se dão conta do complexo emaranhado de peças engraxadas que fazem as horas romanas passarem. Mais de uma década marcando o compasso da fé em Campinas.E a senhora?
Ela entrou na missa, sem dizer o nome. Era baixa, cabelos brancos, óculos dourados de vovó, uma cruz no peito e um terço apertado entre os dedos.
Texto publicado na revista ATribuna, órgão oficial da Arquidiocese de Campinas. Nesta revista, sou colaborador, desenvolvo o projeto "Baú de histórias", que já está em sua quarta edição. Esta foi a publicação número 4, logo você poderá ler as outras edições aqui no blog.
Fotos: Fabiano Fachini
