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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cena III

Uma piada na contramão

Local: Barraca de cachorro quente da prefeitura
Envolvidos: um casal santo e o piadista
Vitima: a sogra


Uma mulher mais ou menos santa. Aparenta 3 décadas de vida. Veste um escuro vestido longo e uma branca camisa de gola, que esconde um crucifixo. Na mão direita, apertada contra o peito, uma bíblia de capa azul e de zíper. Apenas pude ler “Novo Testamento”.
Na mão esquerda, com uma aliança dourada, a mulher segura firme a mão do marido, um negro fino, bem fino, mas elegante. Usa sapatos pretos, bem engraxados e calça escura social. Cinta preta e de fivela prata sem marca alguma. Ele vestia ainda uma camisa social manga longa, abotoada nos punhos e fechada na gola por um nó simples da sua gravata azul. Dele, o que chama a atenção não é a pouca idade, mas o ralíssimo bigode, o qual com a mão esquerda esfrega diversas vezes.
- Vim de Piracicaba para provar seu cachorro quente.
- É mesmo? Responde com ar de brincalhão o dono da barraca.
- Meu amigo falou: o cachorro quente da prefeitura é o melhor.
- Não sei não se é não! Responde entre sorrisos.
Interessante como a localização da barraca deu nome ao cachorro quente. O hot dog é vendido em uma das esquinas da prefeitura. Reúne, diariamente, centenas de pessoas loucas por um pão com salsicha, molho, mostarda, maionese, catchup, milho, ervilha, purê de batata...
O diálogo aconteceu após um longo tempo de espera na fila. A frente do santo casal, 15 pessoas. Atrás, outras muitas.
- Me faz dois cachorros quentes.
- Normal?
- Isso mesmo. Aliás, aproveita e faz mais um pra eu levar pra sogra.
- O dela é normal?
O tom foi provocativo. Mas certeiro como pedrada em balão de vespas. Um minuto de silencio do casal e umas boas gargalhadas do vendedor de dog’s. Já a mulher, reprovou a brincadeira. Na expressão da face, parecia dizer:
- Não quero mais. Fique pra você esse pão com salsicha!
E, se posso contar, parecia que saíria batendo nele com a bíblia.
Palavrão? Não, ela era santa demais para isso. Porém, quase... Já o marido, cabisbaixo, sabe que o silencio é a melhor defesa.
- São seis reais. Cobra o piadista de esquina.
- Aqui está. Responde o esposo amedrontado.
Enquanto o homem paga, a mulher desenlaça os dedos do marido e vai deixando sozinha o lugar. Uma leve, ou melhor, uma forte expressão de raiva a acompanha.


Por Fabiano Fachini